terça-feira, 16 de junho de 2009

O Olhar do Iluminado
(ou Pureza de Coração)


                             Veja tudo que está ao seu redor: o Sol que brilha forte, o vento que sopra amigo, as montanhas imponentes, as flores que exalam perfumes e as nuvens que enfeitam o céu. De onde veio tudo isso? O que todas essas formas, cores e cheiros estão fazendo aqui? A mente se perde perante a imensidão do universo e o grande mistério da vida, porque não pode compreendê-los. Isso mesmo. Não pode “com-preender”, ou seja, prender com ela, prender junto dela. A mente é limitada e nunca irá possuir a Verdade. Portanto, quanto mais tentar prendê-la, mais o ser humano se sentirá frustrado.

                             Olhe e veja tudo novamente, mas agora tente mudar a forma como você observa. Procure uma nova postura. Desenvolva um novo “olhar”. Se for preciso, feche os olhos e veja apenas com o coração. Sinta o grande mistério da existência se dissolver em seu espírito a ponto de tudo isso se transformar numa certeza inabalável de que tudo existe inquestionavelmente e que apenas isso já basta. Simplesmente aceite: tenha fé! A fé não promove dúvidas, não promove questionamentos, não promove conflitos... A mente procura entender, esmiuçar, analisar, dissecar e delimitar tudo com que depara, pois ela própria é muito delimitada. Mas lembre-se: você não é sua própria mente. Você é mais do que isso. Você não é tão limitado a ponto de buscar limitar tudo o que há. Procure aceitar mais e sentir todos os mistérios como se fossem vivos dentro de você. A fé, ao contrário da razão, não procura explicações, a fé não procura vínculos. A Fé apenas procura aceitar... Pelo menos por uma vez, tente olhar as coisas com os olhos cheios de amor e não deixe que sua mente lhe influencie. Liberte-se do domínio da mente. Procure olhar tudo como se fosse pela primeira vez. Olhe o mundo hoje como que por olhos de uma criança pura e despreocupada, como se a cada nova olhada houvesse uma nova descoberta. Sinta o amor de Deus em todas as criaturas e em todas as Suas obras. Esse seu novo olhar só poderá sustentar-se dentro deste mesmo instante em que você olha. É um olhar puramente presente, totalmente desperto das amarras e das ilusões do tempo. Quanto mais preocupado com a razão das coisas e com a temporalidade das coisas, mais distante estará desse olhar.



                             Mas de onde você está olhando? De onde parte esse olhar que a tudo observa, com os “olhos” cheios de amor? Quem é esse que procura o universo? Onde ele está? Esse que observa não pode ser outro senão você mesmo. Não! Não é sua mente. Não é seu raciocínio. A sua mente está, mormente, na sua cabeça, mas você não está na sua cabeça. Você não está dentro do seu corpo. O seu corpo é que está dentro de você. A sua mente é que está em você. Você está em um outro lugar muito distante de tudo isso que pensa (até porque se você estiver pensando, esse lugar só pode estar na sua mente e é visto que sua mente não conhece o lugar onde você está). Mas a pergunta persiste: onde está esse que observa o universo? Onde você está?

                             Ora, você não está em outro lugar senão no lugar onde você está Agora. Você está Aqui. A simplicidade da resposta parece algo óbvio e imbecil à mente, pois o Aqui e o Agora são um local e tempo concretos que ela pensa ter idealizado. Mas a mente é tão limitada que ela não percebe que não está lá, mas que está, na verdade, muito distante de lá. E para compensar essa falta, ela mapeia, cria uma situação de Aqui e Agora que são fictícios. Não há nada que aconteça no presente e no espaço que possa ser compreendido ou lembrado pela mente... Faça um teste você mesmo. Pense no momento mais próximo do Presente que puder abstrair. Pense no último segundo. Não, pense no último milionésimo de centésimo de segundo. Ainda assim, será um milionésimo de centésimo de segundo que se passou e que já não é mais Presente, mas sim passado. A mente age como um cachorrinho que tenta perseguir o próprio rabo, sem nunca sequer alcançá-lo. A mente só vive no passado ou no futuro. Como não consegue estar presente no Agora, cria ilusões de que esse tempo é vivido por ela. Apenas o olhar do iluminado é capaz de deslumbrar o lugar do AQUI e o tempo do AGORA. Apenas o Espírito é capaz de sentir o verdadeiro Agora, o verdadeiro momento Presente, em que a eternidade se faz plena. Apenas o coração puro consegue depreender o seu verdadeiro EU, o verdadeiro Eu que está Aqui e Agora. Liberte-se, pois, de sua mente. Use-a apenas como instrumento de sua vontade, mas não se torne cativo e prisioneiro de seu próprio instrumento. O pior prisioneiro é aquele que está preso por sua própria mente.


                             Parece fácil fazer tudo isso apenas falando, mas é realmente complexo e difícil. A mente é um carcereiro “durão” na queda. Ela possui um poder incrível. Quanto menos se espera, ela volta ao seu posto e te aprisiona novamente sem ao menos que você perceba desse lamentável infortúnio. É por isso que é necessário estar alerta. É necessário estar presente, para não cair nas armadilhas da mente. Buda falava sobre esse estado de concentração no presente. Os mestres zen são famosos por dar bambuzadas em seus discípulos pelas costas para testar o grau de atenção deles. Quanto mais absortos em pensamentos, mais eles se deixavam bater sem querer. Cristo também nos chama a vigiar o presente. Devemos sempre estar aguardando a “chegada dos patrões”, pois não sabemos a que horas irão chegar, ou se algum ladrão tentará invadir a casa. Cristo considerava, também, que as preocupações com o passado e com o futuro são coisas de tolos, pois Deus conhece tudo aquilo de que precisamos para viver e de certo proverá.

                              Deixar de se preocupar com isso, no entanto, não significa ser desidioso e deixar tudo nas mãos divinas, mas sim fazer apenas a nossa parte no AQUI e AGORA, certos de que o passado deve realmente passar por nós, ser deixado para trás, enquanto que o futuro só se realizará quando chegar o seu momento de se tornar Presente. Ser um preguiçoso, não contribuindo em nada para a evolução própria e dos demais seres é a pior atrocidade que alguém poderia fazer, pois, nesse caso, a pessoa estaria desperdiçando, não seu passado ou futuro, mas o próprio momento Presente. O que temos feito dos nossos Presentes? O Agora é uma verdadeira dádiva divina, e por isso mesmo é que o chamamos de "Presente".


                             Mas por que é tão necessário possuir tal “olhar iluminado”, tal “olhar puro”? Por que não podemos negligenciar tal situação? Se a mente domina, não é natural que seja assim? A resposta é não! Você não é sua mente. O seu verdadeiro Eu é o espírito inefável que habita o infinito e que necessita voltar para a morada de onde veio, que necessita voltar para junto do Criador. A partir do momento que perdemos o momento Presente, perde-se o “olhar puro” e conseqüentemente, tornamo-nos cativos da mente novamente. Cativos da mente, não podemos “conhecer” nosso verdadeiro Ser, nosso verdadeiro lugar. Não conhecendo nosso verdadeiro Ser, estaremos apegados às formas ilusórias da existência e, para buscar preencher esse profundo vácuo, tentaremos delimitar os mistérios universais não passíveis de compreensão mental. E quando percebemos que não podemos fazer tal proeza, frustramo-nos e sofremos. O sofrimento é o pecado do ser humano, a maldade que gera o carma (se você for um oriental), ou as maldições (se você é um ocidental). O pecado é aquilo que nos deixa mortos. “O preço do pecado é a morte”. Enquanto que a Verdade é aquilo que nos vivifica. “Aquele que beber da água que eu lhe der, terá vida eterna”. O fato é que você não pode se dar ao luxo de cochilar. Abra seus olhos e contemple a verdade. Sinta todos os mistérios universais e existenciais se dissolverem no ser infinito que é você. O “olhar puro” deve ser tanto externo (para as demais coisas) quanto interno (vigiando o momento presente e as armadilhas da mente). Não se preocupe em perder o controle da mente, pois quem controla o olhar também controla a mente, pois esta é menor do que aquele. No entanto, aquele que é cativo da mente não consegue ter acesso ao “olhar”.

                             Com tal “olhar”, vivencie com fé tudo o que há para ser vivenciado e sinta o propósito da existência se cumprindo em seu ser. Deus se manifesta nas coisas simples. “Esconde-se dos ricos, mas revela-se aos humildes” , como diz Cristo. Se você não percebe a ação divina no mundo, talvez o problema esteja em seu olhar. Procure desenvolver seu olhar puro, seu olhar iluminado. Na próxima vez em que avistar uma rosa, você não a olhará como mais uma rosa, mas sim como uma nova rosa, um novo ser totalmente presente e que necessita ser sentido e vivenciado plenamente. Por mais que você olhe a mesma rosa, a cada novo olhar, uma nova descoberta será realizada. Tudo no mundo muda. Nada é estático. Não julgue que já viu todas as rosas que há para serem vistas, nem que já apreendeu tudo o que há para apreender em uma rosa. Talvez sua mente sinta a necessidade de estudar, analisar, esmiuçar o ser biológico da rosa, mas ainda assim, o verdadeiro ser da rosa será um verdadeiro mistério a cada novo olhar, pois o próprio Espírito do Senhor está em todas as Suas criaturas. A rosa sequer se chama rosa. Rosa é apenas um nome que sua mente atribuiu àquele ser que pretende analisar. Por acaso se a rosa não se chamasse rosa, ela deixaria de ser uma rosa? Ela deixaria de ser ela mesma? Não! Portanto, a rosa não é a rosa, muito menos o nome da rosa.

                             Tudo o que existe possui um determinado propósito. É necessário que você tenha a capacidade de, ao olhar uma rosa, enxergar igualmente o infinito, o Deus, que se revela nessa aparente simplicidade. E muitas outras coisas há além de rosas e flores. Se achar difícil abrir seu coração para uma rosa, quão difícil não achará abrir seu coração para com Deus. A rosa é apenas um exemplo de como você pode desenvolver seu “olhar iluminado”. Não se prenda a esse exemplo, pois nesse caso você estaria igualmente sendo enganado pela mente e tornando-se cativo do carcereiro cerebral. Apenas viva intensamente cada momento como se fosse o último. Faça da sua existência uma verdadeira Existência. Faça da sua presença uma verdadeira Presença. Faça dos seus sentimentos verdadeiros Sentimentos e preencha seu coração com o Amor infinito, que existe no Eterno Agora e que nunca se acabará.




(Texto publicado pela primeira vez em março de 2007)
(Versão atual postada com alterações e correções de natureza gramatical)






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5 comentários:

Cris disse...

Oi Mizi...
que texto lindo.
se a gente entendesse mesmo o valor do Agora, seríamos muito mais felizes, e faríamos os outros mais felizes tbém.
Mas esse aprendizado não é fácil.
Obrigada pelo texto.
bjoca

Anônimo disse...

Texto mágico! O olhar iluminado é realmente difícil, mas não impossível. Viver o momento é compartilhar o que se sente com o próximo como se o agora fosse sua ultima oportunidade. Não existe o amanhã, pois ele foi ontem e é o agora.
"...viva intensamente cada momento como se fosse o último. Faça da sua existência uma verdadeira Existência. Faça da sua presença uma verdadeira Presença. Faça dos seus sentimentos verdadeiros Sentimentos e preencha seu coração com o Amor infinito, que existe no Eterno Agora e que nunca se acabará." by mizi - o iluminado
um forte abraço,
Juquinha

Mizi disse...

Muito obrigado, Juquinha e Cris. Abraços aos dois!

Mizi disse...

Juquinha,

realmente, gastar nosso momento presente amando as pessoas como se não houvesse o momento seguinte é o caminho para se encontrar a felicidade. Perdemos tanto tempo na vida remoendo coisas sem importância que vemos nosso precioso Presente se esvair por nossas mãos para nunca mais voltar. Por isso é tão importante viver cada momento como se fosse o momento mais mágico de toda a vida, pois na verdade é assim que ele é.

Abraços, maninho!

Obs.: tá chegando o casório, neh... eita... rsss

Mizi

Mizi disse...

Cris,

acho que o aprendizado de se valorizar o Agora passa pelo aprendizado de se valorizar "quem" está no Agora, que são "você mesma", "os outros".

O momento Presente é só o "tempo" em que isso ocorre. Na verdade, o que ocorre é o Amor, pois é a única coisa que há de "verdadeiro" para ocorrer.

E no Amor, enxergamos Deus... É por isso que os puros de coração enxergarão a Deus "como O é em si mesmo", ou seja, "ipsi Deum" (Deus em si mesmo) "videbunt" (verão), pois Deus é Amor.

Abraços, Crisita!