quinta-feira, 26 de março de 2009

O Ego e o Ego.


                             Psicanaliticamente, a noção do conceito de ego difere um pouco da noção de ego a que as religiões orientais comumente se referem... Para o Zen, ego é tão somente a noção intelectual (ilusória, no caso) de que o ser humano é um ser pessoal, um ser que deve ser "cheio" para ser pleno (entenda esse "cheio" como cheio de si mesmo, ou seja, cheio de EU, cheio de EGO). No entanto, a Psicanálise (inventada por Freud na modernidade) trata o ego de forma mais profunda e analítica do que isso. Ego (que significa EU, em latim), para a Psicanálise, é um nível intermediário de consciência humana. Respeitando o princípio dos 3 mundos ou planos, Freud (mesmo sem saber) postulou também os três planos de consciência da mente humana. Há o plano superior, o Superego; o plano intermediário, o Ego; e o plano inferior, o Id. O Superego e o Id, como era de se esperar, são níveis de consciência completamente opostos. Enquanto o Superego é a "voz moral" do indivíduo que sempre diz o que é certo e o que é errado, que está sempre manipulando e vigiando o indivíduo e suas ações perante seus semelhantes, o Id é o oposto. O Id é o nível mais "guardado" da consciência, ou seja, é o inconsciente. É lá que moram os desejos mais profundos do ser, a vontade incontrolável e avassaladora que não conhece limites, nem moral. Para o Id, tudo pode, tudo é permissível. Como forma de auto-defesa do ser e das relações sociais, o Id costuma se manifestar mais durante os sonhos, quando a pessoa não tem a possibilidade de submeter ninguém aos seus caprichos. É por isso que muitos dos nossos sonhos são prazeres incríveis (ou pesadelos terríveis), pois na verdade são os reflexos dos desejos e medos primais em nosso âmago mental, nosso inconsciente. Se fôssemos colocar tudo que temos no Id em prática, tornar-nos-íamos seres nefastos, cruéis e que visam somente à satisfação do interesse próprio (é algo mais parecido com o ego das religiões orientais, na verdade). Já o ego da Psicanálise é o plano intermedíário de consciência entre as ordens morais e sociais (Superego) e os desejos pessoais e inconsequentes (Id).


                             O pobre do ego é tão vítima da existência mental, quanto você é vítima da existência universal... O ego é o responsável por conciliar a ordem social superior e o funcionamento da sociedade com os desejos mais profundos da mente. Como nunca pode ceder totalmente a nenhum dos extremos opostos, vive insatisfeito e infeliz. O sujeito moderno, numa definição freudiana, é um sujeito EGO, um sujeito que está sempre insatisfeito com as coisas (o que se define por neurose). Mesmo que venha a obter o seu objeto de desejo (denominado "falo", na ciência psicanalítica), esse falo não será suficiente para tampar o grande buraco da insatisfação pulsional do Ser, e a pessoa novamente entrará em depressão neurótica (característica totalmente normal, pela visão da Psicanálise). O ser humano é um ser que nasceu para estar constantemente insatisfeito e neurótico, pois só pode manifestar seu Ego como nível de consciência mental. Submeter o Ego às exigências total do superego é estar eternamente reprimido. Deixar-se levar pelo Id, no entanto, pode ser devastador e inconsequente. O ego, para Freud, na verdade exerce uma função muito importante para o ser humano. É ele quem está sempre sendo colocado à prova. É ele quem tem sempre que medir palavras para saber a melhor forma de se relacionar socialmente com o ambiente externo. Vejamos a definição retirada do wikipédia para um melhor entendimento:

                              "Ego ou Eu é o centro da consciência, é a soma total dos pensamentos, idéias, sentimentos, lembranças e percepções sensoriais. É a parte mais superficial do indivíduo, a qual, modificada e tornada consciente, tem por funções a comprovação da realidade e a aceitação, mediante seleção e controle, de parte dos desejos e exigências procedentes dos impulsos que emanam do indivíduo. Obedece ao princípio da realidade, ou seja, à necessidade de encontrar objetos que possam satisfazer ao id sem transgredir as exigências do superego. O ego, diz Freud, é "um pobre coitado", estando reprimido entre três escravidões: os desejos insaciáveis do id, a severidade repressiva do superego, e os perigos do mundo exterior. Por esse motivo, a forma fundamental da existência para o ego é a angústia. Se ele se submeter ao id, torna-se imoral e destrutivo; se submeter-se ao superego, enlouquece de desespero, pois viverá numa insatisfação insuportável; se não se submeter ao mundo, será destruído por ele. Cabe ao ego encontrar caminhos para a angústia existencial. Estamos entre o limite do prazer (que não conhece limites) e o princípio da realidade (que nos impõem limites externos e internos). O Ego, em sua função básica à natureza humana, é a consciência da sobrevivência, é o limite da consciência entre o instinto de doar-se a uma causa ou a uma verdade rígida (Superego) e o da própria sobrevivência humana como indivíduo. É importante salientar que a função do EGO é ignorada e, portanto, este tantas vezes é utilizado de forma exacerbada, errônea e inconsequente, mas que é acima de tudo uma função na composição mental do indivíduo."


                             Dessa forma, se pensarmos nas religiões orientais como formas de manifestação transpessoal que pretende derrubar o Ego a fim de colocar o Ser em contato com o Transcendente, entra-se em uma profunda contradição conceitual com as noções de Ego que a ciência Psicanaltíca constitui. Um verdadeiro paradoxo científico. Talvez, a infelicidade da tradução da palavra EU dos antigos escritos orientais tenham causado essa confusão. O ego não pode ser perdido da mente humana, sob pena de esquizofrenia patológica, ou seja, o rompimento do ego que causa a loucura da sanidade mental. Romper o Ego na Psicanálise é totalmente diferente da idéia de perder o Ego para as religiões orientais. Cientificamente, se isso ocorresse, o indivíduo pensaria como um louco (sem noção do limite entre o real e o imaginário). Seria correto afirmar que os Iluminados são loucos, esquizofrênicos? Ou são seres esclarecidos? Na verdade, acredito que o que as religiões orientais realmente combatem não é o Ego (como é definido pela Psicanálise), mas sim o nível mais brutal do ser, ou seja, o Id, a inconsciência primal e instintiva do ser, morada dos desejos introspectivos... Segundo o budismo, o Desejo é o que deixa o ser humano descontente e que gera o sofrimento, fadando o homem ao ciclo cármico. Isso é compatível com os postulados de Freud no tocante a instisfação do Ego, perante a frustração dos desejos (falos) que nunca são saciados (ou seja, se se perder o Id, não há desejos, nem sofrimentos do Ego pela frustração). Dessa forma, pode-se afirmar que, conceitualmente, para a ciência moderna é mais viável em se falar em supressão do ID ao invés da supressão do EGO (embora essa mudança de termos possa prejudicar o entendimento das tradições orientais).

                             O ego é a alma da mente humana e sem ele não há vida, não há inteligência lógica, não há manifestação pura, serena e controlada do vazio, pois é o Id que está sempre em pulsação e atividade descontrolada. A transcendência espiritual tem até conceito científico para a ciência Psicanalítica, sendo chamada muitas vezes de SUBLIMAÇÃO, que é o direcionamento dos desejos pulsionais e da repressão educacional em forma de aproveitamento benéfico do ser e dos seus semelhantes (algo parecido com o zazen e a tranquilidade do espirito para que possamos lidar de forma inabalável com as situações da vida e com as pessoas ao redor).


                             De qualquer forma, não há como negar sequer a importância dos desejos (Id) e da educação repressora (Superego) para o ser humano. Freud, apesar de desvendar os mistérios da mente, diz que o ser humano precisa passar necessariamente por tudo isso para que seja completo. A Sublimação é o caminho posterior, o caminho da superação dos conflitos da mente, assim como a IlUMINAÇÃO deve ser uma superação conquistada e não herdada. Assim, como a Psicanálise nada pode fazer para influenciar, nem para ajudar, em nenhum aspecto, a sublimação, o Zen também possui o mesmo discurso de que não serve para nada, e que quem busca a superação pessoal é o próprio Ser. Não há uma fórmula mágica, uma doutrina, uma liturgia ou tratamento mental que possa dar 100% de certeza sobre resultados. O zen, assim como a psicanálise, não serve para nada (embora sirva para muita coisa)...


(Texto de autoria própria. Publicado pela primeira vez em fevereiro de 2007)






MULTIMEDIA COMPLEMENTAR:

                             A música e a letra a seguir não constavam da publicação original, mas achei apropriado acrescentá-las a essa edição, como um complemento, para deixar o post mais interessante. Apesar de poucas pessoas gostarem de Heavy Metal, a letra vale a pena. Espero que gostem.


Ego Painted Grey (Angra)




I feel the pain but I'm afraid to cry
All the time, desperate hiding tears.
My life is boring, and I count the days,
On and on, woe is here to stay.

Only if God would show a sign for me,
Oh... Only if God could hold my begging hands.

This endless torture's building up my rage,
Holding on, hide my agony.
I'm getting weary just to be alive.
All I want is help!!!

So, you dove into the dark beyond yourself,
Lost your way to find the surface once again.
Insomnia will kill all your solemn nights... Oh!
Haunting your despair!!!

Sorrow made your life a living hell.
Lights are fading
Caught inside the black-holed inner-self:
Ego painted grey...

Insomnia will hold pleasures in a shell
And your defiant stare!!!

Sorrow made your life a living hell.
Lights are fading
Caught inside the black-holed inner-self:
Ego painted grey...





Tradução (By Mizi):

Ego Pintado De Cinza (Angra)

Eu sinto a dor, mas estou com medo de chorar.
O tempo todo, me desespero escondendo lágrimas.
Minha vida é chata, e eu conto os dias,
Um dia após o outro,
Sempre aqui para ficar.

Se pelo menos Deus me mostrasse um sinal...
Se pelo menos Deus pudesse segurar minhas mãos que imploram.

Esta tortura sem fim, aumentando minha fúria
E me Prendendo, esconde minhas agonias.
Canso-me só de estar vivo.
Tudo o que quero é ajuda!

Então você mergulhou no escuro
Dentro de você
(dentro de você)
Perdeu seu caminho para achar a superfície
Mais uma vez
(mais uma vez)

A insônia irá matar todas as suas noites solenes,
Assombrando seu desespero.

O sofrimento fez da tua vida um verdadeiro inferno
As luzes estão se apagando
Capturadas dentro do buraco escuro no seu âmago:
Ego pintado de cinza.

A insônia irá reter os prazeres numa concha
E no seu olhar desafiador

O sofrimento fez da tua vida um verdadeiro inferno
As luzes estão se apagando
Capturadas dentro do buraco escuro no seu âmago:
Ego pintado de cinza.




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7 comentários:

H K Merton disse...

MIzi, sabia que quando eu disse, lá no meu blog, que ao falar em ego, possivelmente surgiriam confusões ou equívocos, estava pensando exatamente em você?.. =P Não porque não seja capaz de compreender, mas porque sei que você adota uma outra concepção a respeito desse assunto.

Sei lá... Esses conceitos de Freud me soam abstratos demais, complexos demais, rebuscados demais. Não concordo que a Psicanálise trata o ego de uma forma mais profunda que o Zen-budismo. Ao contrário, acho que, na experiência da mente, dificilmente algo poderia ser mais profundo que a visão budista. E discordo TOTALMENTE dessa parte:

"Para o Zen, ego é tão somente a noção intelectual (ilusória, no caso) de que o ser humano é um ser pessoal, um ser que deve ser "cheio" para ser pleno (entenda esse "cheio" como cheio de si mesmo, ou seja, cheio de EU, cheio de EGO)"

Não não, a proposta do budismo é o exato oposto disso. A proposta é deixar as aparências de lado e se concentrar no real, no que é de fato "eu".

Acho que o que Freud fez foi complicar tudo, ao analisar, dividir e subdividir o conceito de mente em várias partes e dar nomes para cada uma dessas partes. Isso não ajuda a esclarecer a questão em nada; ao menos nunca ajudou à grande maioria das pessoas comuns, que não tem tempo, paciência e nem cultura para se aprofundar em todos esses termos técnicos e seus significados.

Sou da seguinte opinião: quando se trata da tentar entender a mente humana, o mais simples é quase sempre o melhor. E na verdade, se o budismo por um lado simplifica as coisas, por outro as analisa mais aprofundadamente do que qualquer outra ciência humana que eu já tenha conhecido. Vejamos o que diz o lama Ganchen Rinpoche:

Se sentirmos que o eu, ou nosso ego, é realmente nosso corpo, então:

1. Qual parte do corpo somos? A cabeça, o coração, os membros?

2. Como tenho muitas partes, devo ter muitos "eus" e muitos "egos".

3. Se sou o meu corpo, então, mesmo que minha mente não esteja nele, eu estarei existindo. Quando meu corpo morrer, deixarei de existir.

4. Se alguém corta fora nossa perna com um machado, gritamos, "Ele cortou minha perna", mostrando assim que bem no fundo sentimos que somos proprietários de nosso corpo, mas não o corpo em si.

5. Mas se sentimos que nosso ego é a nossa mente, precisamos examinar o que nossa mente é. Segundo o budismo, temos muitos fatores ou aspectos maiores ou menores da mente: seis sentidos e consciências mentais e cinqüenta e um(!) fatores composicionais (todos os aspectos misturados de clareza e escuridão em nossa mente). Ora, se tenho tantas mentes diferentes, devo ter muitos 'eus' diferentes (uma personalidade múltipla esquizofrênica com cinqüenta e sete identidades!).

6. Quando alguém nos insulta, pensamos, "Ele machucou meus sentimentos", mostrando assim que nos sentimos os proprietários de nossa mente, e não a mente em si.

7. "Penso, logo existo" — Se sou minha mente, posso viver sem meu corpo?

8. Se sentimos que somos a combinação de nosso corpo e mente, devemos tentar seguir o seguinte raciocínio:

Não sou meu corpo.

Não sou minha mente.

Mesmo assim, quando eles estão juntos, chamo-os de "eu". Mas como é possível que dois "não sou" tornem-se um "eu sou"? Pense nisso! Esse é um enigma profundo e cheio de sentido.

9. Se sentimos que nosso eu é diferente de nosso corpo e mente, deveríamos tentar imaginar então que nosso corpo foi totalmente destruído (por uma explosão atômica, por exemplo), e que nossa mente foi, de alguma forma, desligada, totalmente aniquilada. Onde estaríamos então?

10. Portanto: Certamente não sou meu corpo, não sou minha mente, nem a combinação de meu corpo e mente; Então, onde estou? A resposta é: em 'lugar nenhum'. O que percebemos nesse momento, se tivermos feito o exercício da forma adequada, é a perfeita liberdade e o espaço absoluto.

Esse nada NÃO é o frio vácuo morto do espaço exterior ou a completa negação da vida que nos ensinaram certos 'mestres' e filósofos. A experiência da vacuidade, ou do espaço absoluto, é preenchida por uma sensação de extrema bem-aventurança e uma profunda paz. Segundo os nossos sentidos, não há 'nada' lá, mas de alguma forma encontramos a sensação de arrebatadora alegria de tocar a essência da Vida e o tecido fundamental da Realidade.

Ainda assim, não há 'nada' lá. - Mas 'Tudo' não está no 'Nada'? E não foi do 'Nada' que 'Tudo' surgiu? Bem, isso é o que dizem as religiões.

É uma concepção fascinante e maravilhosa. Então, compreendemos de verdade o mal que é capaz de causar o nosso ego, pois nos impede de ter essa arrebatadora experiência. O eu que o budismo chama 'ego', nesse sentido, é realmente a fonte de todo egoísmo, vaidade, inveja, sentimento de separação...

Todas as vezes que tentamos neutralizar o ego, devemos tentar manter a mente ingênua como a mente de uma criança. Não é bom começar o exercício pensando, "Já sei a resposta" ou "Que tédio!", pois assim não poderemos ter o impacto emocional do inacreditável fato de que de repente nosso ego desapareceu, fugiu envergonhado.

Anular o ego é um processo difícil e demorado. Mas é absolutamente benéfico e, por isso, devemos persistir com alegria. Nossa porcentagem de vitória crescerá passo a passo.

Finda a exposição do Lama Ganchen Rinpoche, completo com o que eu mesmo descobri a respeito do ego:

Tendo exposto nosso ego usando a luz da sabedoria, tudo que nos resta é um vasto espaço ou vacuidade que nos torna livres para retornar a Casa do Pai.

"Se alguém quiser me seguir, NEGUE-SE A SI MESMO, tome sua cruz e me siga."

Esse negar-se a si mesmo, para mim, não significa negar ao seu eu real, óbvio, pois isso só poderia ser feito através do suicídio! Como eu poderia recusar ou renegar a mim mesmo, se eu só posso ser eu mesmo? Claro que a afirmativa se refere à negação do "eu" ilusório, o eu EGO-ÍSTA, que só pensa em si mesmo, satisfazer seus desejos, realizar seus sonhos, atingir sucesso em tudo que faz... Aquele que vive criando castelinhos de areia, sempre renovados, e não para nunca.

As pessoas comuns, em geral, necessitam de muito espaço individual e sempre se sentem desconfortáveis em espaços tanto em pequenos quanto em multidões. O antídoto para essa sensação é familiarizar a mente com o vasto espaço interior do não-ego, não-eu, não-meu... A autocura não é desenvolver o ego, mas dissolvê-lo! Assim, sempre nos sentiremos muito confortáveis e relaxados, mesmo se estivermos rodeados por trinta pessoas gritando todas ao mesmo tempo. Claro que falar é muito mais fácil do que fazer...

O fato é que algumas pessoas sentem medo quando entram em contato com esse imenso espaço interior, sentindo que fizeram desaparecer a si mesmas. Mas não há motivo para se preocupar: apenas fizemos desaparecer temporariamente nossa alucinação ou fantasia do ego. Quando chegar o momento de você entrar em contato com o espaço interior, não se preocupe, seu corpo e mente, seu eu, surgidos interdependentemente, ainda estarão aqui.

Me empolguei. Escrevi um post. Abraço forte, querido amigo e parceiro de jornada!

- Mizi - disse...

Grande H K,

É o seguinte: vou tentar explicar melhor a minha intenção quando escrevi esse texto há 2 anos.

"Não porque não seja capaz de compreender, mas porque sei que você adota uma outra concepção a respeito desse assunto."

NHÃÃÃÃ... Deixando a questão da minha capacidade ou não de entender o budismo ou a Psicanálise, gostaria de dizer que eu não adotei concepção nenhuma de ego neste texto. Eu não tomei partido nas opiniões. Apenas manti a dialética, dizendo o que é o Ego para o Zen e o que é o Ego para a Psicanálise. A minha opinião a respeito disso é que trata-se de um paradoxo aparente causado pela linguagem. E era o que eu pretendia demonstrar com o post. Para tanto, no meu livro (obra prima que é minha, está quase pronta), não adoto o termo Ego, mas tive que criar outro termo para dizer o que desejava. Eu sou assim: quando não encontro saídas, invento. Sou bem criativo. E também não tenho culpa se a lingua latina (a despeito da teoria de Chomsky) nem sempre é tão recursiva. Todos esses paradoxos e aparentes contradições conceituais surgem da limitação natural da linguagem humana. E essa é a única opinião que, com certeza, podem dizer que eu adoto.


"Não concordo que a Psicanálise trata o ego de uma forma mais profunda que o Zen-budismo. Ao contrário, acho que, na experiência da mente, dificilmente algo poderia ser mais profundo que a visão budista.


Bom, aqui o erro foi meu, porque me esqueci de avisar uma coisa básica (eu já tinha percebido, mas preferi manter o texto conforme o publicado no original, sem alterações). Quando escrevi "mais profundo e analítico" estava me referindo à atitude científica de estudo e análise. A Psicanálise estuda o EGO, enquanto que o zen simplesmente o despreza. Eu não estava, em absoluto, imbuindo nenhuma carga positiva ou negativa à palavra "profunda". Apenas quis dizer que a psicanalise analisa e estuda, o zen simplesmente não se importa. Não disse profundo em sentido espiritual. Erro meu usar uma palavra tão ambigua. Admito! Mas preferi manter o texto conforme primeira publicação.


E discordo TOTALMENTE dessa parte:

"Para o Zen, ego é tão somente a noção intelectual (ilusória, no caso) de que o ser humano é um ser pessoal, um ser que deve ser "cheio" para ser pleno (entenda esse "cheio" como cheio de si mesmo, ou seja, cheio de EU, cheio de EGO)"


Explico: quando comecei a estudar Psicanálise na universidade, não pude deixar de traçar paralelos entre as idéias científicas a respeito da mente e as respectivas idéias religiosas sobre a mente. Foi um fenômeno de associação natural, assim como eu (e as pessoas falam que sou louco) consigo encontrar conexões em praticamente tudo à minha volta (músicas, textos, filmes). Eu simplesmente encontro um jeito de ligar o universo fenomênico ao plano da espiritualidade. Lembra que eu disse que vejo espiritualidade até em músicas Heavy Metal??

Mas que uma coisa fique clara: Psicanálise é uma ciência e não uma religião. É uma ciência que tem por objeto de estudo a mente. E o zen é uma religião, e não uma ciência. É uma religião que tem por objeto de trabalho principal a mente. A Psicanálise, em absoluto, não trata em momento nenhum sobre a espiritualidade. Freud, inclusive, era ateu e totalmente averso à religião (mormente ao catolicismo). Só que Freud não percebia que, ao estudar a mente, estava descobrindo aquilo que as religioes já sabiam há muito tempo. Ele ia colocando nomes para os fenômenos que observava e estudava. E por uma infeliz coincidência, ele resolveu utilizar o termo "ego" para designar uma das muitas funções da mente humana que pôde observar. A famosa frase: "Freud explica" é totalmente eqivocada. A primeira coisa que aprendemos é que a Psicanálise não explica. Ela interpreta. Ou seja, só dá um novo sentido. Freud não explica. Ele interpreta.

Aí fui eu, como acadêmico e religioso que sou, tentar traçar um paralelo entre a ciência psicanalítica e o zen budismo. Percebi que o conhecimento produzido por ambos eram idênticos, e que apenas as denominações eram divergentes. Mas, como bom linguista, sempre soube que a linguagem não diz respeito propriamente à essência dos seres, posto que existem muitas formas de linguagem humana. Quando um americano fala LOVE, e quando falamos AMOR, e quando os japoneses falam AI, não querem dizer coisas diferentes, ainda que deem nomes diferentes. É isso. Estudando à fundo a Psicanálise, descobri uma curiosa relação de equivalência:

EGO (psi) = EU (zen) = é bom!
EGO (zen) = ID (psi) = é ruim!
Sublimação (psi) = iluminação (zen) = superação!

Assim, a Psicanálise fala em um Ego e em um ID, enquanto o zen fala em um EU e em um Ego. No entanto, a confusão é linguística, pois os conceitos no fundo são iguais. Assim, não discordo que o que vc disse é igual ao que eu disse. "Ou seja, para o zen, o ego é uma ilusão de que o homem deve ser cheio de si mesmo". Meu erro foi tentar misturar as concepções de EU e Ego, num texto que trata ao mesmo tempo de Psicanálise e budismo.


"Não não, a proposta do budismo é o exato oposto disso. A proposta é deixar as aparências de lado e se concentrar no real, no que é de fato "eu".

Hum... Olha aí o que disse... será que é o oposto mesmo, amigo???

Acho que o que Freud fez foi complicar tudo, ao analisar, dividir e subdividir o conceito de mente em várias partes e dar nomes para cada uma dessas partes. Isso não ajuda a esclarecer a questão em nada; ao menos nunca ajudou à grande maioria das pessoas comuns, que não tem tempo, paciência e nem cultura para se aprofundar em todos esses termos técnicos e seus significados.

É exatamente por isso que disse ao final que a Psicanálise não serve para nada. Pergunte a qualquer psicanalista se a psicanálise serve para algum tipo de tratamento psicológico, se ajuda alguém a superar algum trauma ou qq coisa do tipo... Todos vão dizer que NÃO! A psicanálise é apenas uma interpretação dos fenômenos mentais. Não prescreve tratamentos. Isso quem faz é a psicologia, que possui conceitos totalmente diferentes da psicanálise. Afinal... aqui encontrei mais uma relação com o nosso amado zen. Pergunte a qualquer mestre zen se o zen serve para alguma coisa, se tem alguma utilidade. Vão dizer que não. Então para que servem ambos? Concluí que a Psicanálise serve tanto quanto o zen serve (embora nao sirvam pra nada). Entendeu essa pegadinha??

Quanto ao resto do comentário, concordamos em pensar da mesma forma. Tudo o que você escreveu pe verdade. Agora lê o que você escreveu, o que eu escrevi, e depois lê o post. Você vai entender que é a mesma coisa, e que apenas os termos linguísticos foram trocados... HAHAHAHA!!

Era essa a intenção do post!
Ufffaaa!!

Abraço forte, querido amigo e parceiro de jornada! =D

Obs.: agora deixa eu trabalhar, senão a chefe me mata!

H K Merton disse...

Belas conclusões, tudo esclarecido, e bem esclarecido. Muita coincidência eu ter falado sobre ego no meu blog e logo na sequência sair esse post falando sobre o mesmo assunto por aqui, que você escreveu há dois anos, não é? Coinciência? Sincronicidade? Não sei... Mas que valeu a pena valeu, ao menos para mim.

E olha, não acredito que você escreveu tudo isso no trabalho! Hauahauahahahah!.. Se eu pego um funcionário meu fazendo isso, é justa-causa na hora... Ou então dava um aumento pra ele, sei lá... =P


Abraço forte, amigo querido! E me diz aí: justa-causa tem hífen?

- Mizi - disse...

Haheuia...

Sacanagem... Bom, que eu saiba, pelo menos antes da mudança, justa causa não tinha hífen... Não sei se mudou. A regra de hífens tá uma bagunça só... hehehe!


Obs.: vc tá falando de ego no seu blog? O último texto que li foi a "em busca da libertação final", que aliás, estão todos esperando de mochilas nas costas pela peregrinação... Rsss... Já vou lá para ver as novidades então.

Abraços!

Anônimo disse...

Discussão interessante! Sabendo que o que nos faz sofrer são os desejos, e adotando a definição Zen de ego, podemos facilitar o entendimento de Freud definindo três personagens, se assim posso chamá-los, são os seguintes:
- Desejador = ID;
- Mediador = EGO; e
- Legislador = SUPEREGO.
Na busca da liberdade interior, inevitável o conflito com o EGO (próprio e de nossos pares), como definido pelo zen. Contê-lo é a minha busca. Não ao desprezo e à lisonja, extremos ardilosamente usados pelos egos na busca de seus desejos (EGO do Zen é semelhante ao ID de Freud, mas sua compreensão é transcendente, superior a visão meramente científica desta batalha. Entre o querer e a felicidade verdadeira.

Anônimo disse...
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J.S disse...

Olá,

primeira vez que visito este Blog, e vejo um bom debate aqui nos comentários, apesar de que vocês postaram tudo isso a um bom tempo, quero só deixar minha opinião a respeito da comparação feita do Ego(zen) com o ID.
Na minha opinião, dizer que são as mesma coisa pode cair em contradição, levando em consideração que o ID é formado por nossos instintos mais baixos, inconscientes, eu poderia dizer ate que seria nossa parte animal que ainda atua em nós de forma latente. O Ego no oriente seria o intermediário entre nossa parte animal e a espiritualmente mais elevada, um ser que não sabe ainda exatamente o que é a si mesmo e então, por não saber como se definir, um pavor absoluto passar a dirigir sua vida. Eu poderia dizer que essa parte espiritualmente elevada é o Superego, mas no entanto, ele é formado pelo nosso passado, ou seja, ele é tendencioso e qualquer comportamento que se baseia na nossa historia de vida foge dos ensinamentos Zen.